Paulo Freire é o 3º teórico mais citado em Ciências Sociais no mundo?

Recentemente, tem se difundido pelo Brasil a notícia de que Paulo Freire tem a 3ª obra mais citada no âmbito de ciências sociais no mundo inteiro, de acordo com um estudo feito por Elliot Green, da London School of Economics (notar que, ao final do artigo, reforça-se o fato de que se trata da opinião exclusiva do autor, e não do blog LSE Impact, tampouco da London School of Economics). Uma dessas notícias foi divulgada no site hypeness, do terra, e escrita por Vitor Paiva (notar que no título não se reforça o escopo exclusivo da área de humanas, muito menos se reforça o fato de que se trata da 3ª obra mais citada, o que não implica o 3º teórico mais citado). A priori, a alta repercussão da obra de Freire é inegável, ainda que alguém discorde de suas ideias de cunho marxista, de forma que não seria uma surpresa ele figurar entre os autores mais citados no mundo (o “método” de Freire foi derivado do seu contato e fascínio pelas ideias de hegemonia cultural de Antonio Gramsci, quando esteve em Guiné-Bissau, e foi amplamente aplicada na América Latina, especialmente no Brasil). Entretanto, uma análise mais cuidadosa do estudo de Green e do Google Scholar mostra que tal estudo tem erros graves, conforme mostrarei nos tópicos a seguir.

  • O estudo citado de Green coloca Thomas Kuhn e Everett Rogers à frente de Freire e Benedict Anderson logo duas linhas abaixo, sendo que nem Kuhn, nem Rogers nem Anderson possuem perfis no Google Scholar (verifique você mesmo). Nem mesmo Lev Vigostsky (amplamente conhecido) possui um perfil lá. Michael E. Porter, que está logo atrás de Freire tem um perfil lá, e sua obra principal, Competitive Strategy, tem 122.495 citações combinadas em todas as línguas (versus 57.772+25.516 = 83.288 atuais de Freire, em inglês e em espanhol, respectivamente; outras versões em português ou variantes têm números de citações muito pequenas e não farão diferença significativa -você pode conferir aqui-, pois a lista fica em ordem decrescente de número de citações).
  • É simples entender que jamais se mede a importância de um autor apenas pelo número total de publicações ou citações. O número total de publicações não mensura qualidade, enquanto o total de citações é fortemente enviesado, por exemplo, por desproporções quando um autor participa com uma parcela pequena dentro de uma publicação muito mais abrangente ou quando o autor tem muitas publicações com poucas citações em cada. Foi exatamente para mensurar qualidade e quantidade combinadas que se formulou a métrica h-index, a qual está estampada no Google Scholars não pra enfeitar, mas para servir de parâmetro. O estudo de Green simplesmente omitiu qualquer análise desse índice, o qual modifica totalmente a lista. Para efeito de comparação inicial, Freire tem um h-index de 113, enquanto Porter tem 133 e Albert Bandura, 174 (9º lugar na lista de Green). Mais impressionante ainda é notar outros nomes bastante famosos que estão ou em posições baixas ou não existem no ranking de Green. Para ver a discrepância, veja este ranking, do Ranking Web of Universities (o primeiro link -portanto mais relevante- apresentado pelo Google quando se busca por “most cited authors google scholar“), e aqui abreviado por RWU, bastante renomado dos autores mais citados segundo o critério h-index>100, sem distinção de área de estudo (ou seja, incluindo todas as áreas que estão fora das ciências sociais). Comparemos alguns autores da área de ciências sociais:
    • Karl Marx, 17º lugar na lista de Green e 58º na lista do RWU, tem um h-index de 158;
    • Michel Foucault, 11º lugar na lista de Green, 7º na lista do RWU), tem h-index de 228 , já ultrapassando o dobro do índice de Freire; e o principal:
    • Sigmund Freud: 1º lugar na lista do RWU, mas simplesmente omitido da lista de Green. Como um autor que se tornou um ícone pop não figura na lista de Green? Por acaso aquele que é considerado o pai da Psicanálise não é da área das ciências sociais? Freud tem um h-index de “apenas” 266.
    • Em termos de número de citações (como já dito, uma métrica não tão justa), teríamos ainda os dez mais citados com h-index>100, segundo os dados do RWU na Tabela 1 (a coluna rank é o ranking por h-index). Note como posição de Paulo Freire em termos de h-index é bastante baixa, e na verdade Freire tem menos da metade do número de citações de Freud, o terceiro na lista em questão.

 

fig1
Tabela 1 (dados do RWU)

Dessa forma, afirmar que Paulo Freire é o 3º teórico mais citado no mundo é, no mínimo, propagar uma informação muito imprecisa, baseada numa análise simplista, e a julgar pelo nível de conhecimento que Elliot Green deve ter, isso só pode ter sido feito com alguma má fé ou com falta de atenção ao problema de colocar a obra principal de autores em ordem de citações com o propósito de dizer, ao mesmo tempo, que a mesma ordem representa também a ordem dos autores de maior impacto real na sociedade, tanto em termos qualitativos como quantitativos. Mas Vitor Paiva foi além no hypeness: intitulou a matéria para que os leitores pensassem que Paulo Freire é simplesmente o 3º teórico mais citado entre todas as áreas do conhecimento. Erro de digitação ou vontade de ver seu ídolo destacado?